Biografia

Marcos Portugal Marcos António da Fonseca Portugal [Marco Portogallo] (Lisboa, 24 de Março de 1762 – Rio de Janeiro, 17 de Fevereiro de 1830), organista, maestro e prolífico compositor luso-brasileiro (mais de 70 obras dramáticas, incluindo cerca de 40 óperas, e mais de 140 obras religiosas), conheceu um sucesso internacional sem paralelo na história da música portuguesa, com centenas de representações operáticas na Europa. Em Portugal e no Brasil, no entanto, a sua fama de compositor alicerçou-se primordialmente no género sacro, com algumas das suas obras mantendo-se no repertório das igrejas e capelas até inícios do século XX.

Foi aluno do Seminário da Patriarcal de Lisboa a partir dos 9 anos, onde estudou com João de Sousa Carvalho e provavelmente com José Joaquim dos Santos. De acordo com uma relação de obras, publicada em 1859 na Revista Trimensal do Instituto Historico Geographico e Etnographico do Brasil, a partir do original autógrafo na possse de Manuel de Araújo Porto-alegre, a primeira apresentação pública do compositor Marcos António (como era conhecido no início de carreira) deu-se na Santa Igreja Patriarcal em 1780, com duas antífonas «a canto d’orgão»: um Salve Regina e um Sub tuum praesidium. Nessa instituição foi admitido como organista em 1782 com o salário de 12$500 reis mensais e, a partir de 1 de Setembro de 1787, também formalmente como compositor, com um aumento de 50$000 reis anuais. No ano de 1782 recebe uma encomenda da Rainha D. Maria I, uma Missa com instrumental para a festividade de S. Bárbara. Este evento estabeleceu o início do seu relacionamento com a Família Real, e sobretudo com D. João, marcando decisivamente o seu percurso profissional e estético.

Até 1792, e depois de ter sido admitido na Irmandade da S. Cecília a 23 de Julho de 1783, acumulou o emprego atrás referido com o de Mestre de Música do Teatro do Salitre (a partir de c.1784) para o qual compôs entremezes, elogios (para celebrar aniversários reais), e farsas em português. Outra actividade importante deste período refere-se às encomendas para as festividades religiosas celebradas nas várias capelas reais, com incidência particular para Queluz.

O agravar da doença da Rainha D. Maria I, e o início da regência do Príncipe D. João precedem de cerca de 6 meses a partida do compositor para Itália onde «all’attuale servizio di S. M. Fedelissima» (conforme se pode ler em alguns libretos), e em apenas 6 anos e meio, estreou pelo menos 21 óperas, a maior parte delas opere buffe. O sucesso de óperas como La confusione della somiglianza, La Donna di genio volubile ou Lo Spazzacamino Principe foi imenso, e extravasou para o resto da Europa, com representações em Viena, Paris, Londres, Dublin, São Petersburgo, Berlim, Dresden, Hamburgo, Hannover, Leipzig, Nuremberga, Corfu, Barcelona, Madrid, Lisboa, Porto... (vide Manoel Pereira Peixoto d’Almeida Carvalhaes, Marcos Portugal na sua musica dramatica, Lisboa, 1910, Supplemento: 1916)

De volta a Lisboa em meados de 1800, é nomeado Mestre de Solfa do Seminário da Patriarcal e Mestre de Música do Real Teatro de S. Carlos, onde compõe opere serie, quase todas com papéis principais para a prima donna Angelica Catalani que, depois de deixar Lisboa em inícios de 1806, continuaria cantando as óperas de Marco Portogallo (nomeadamente La morte di Semiramide e La morte di Mitridate), e incluindo algumas árias nos seus recitais (Son Regina tornou-se a mais conhecida). A única opera buffa escrita para o Teatro de S. Carlos foi L’oro non compra amore de 1804, vindo a ser cantada em Madrid, Paris, Monaco (da Baviera), Rio de Janeiro (2 vezes) e, até 1821, em 20 cidades italianas.

O abortado golpe de estado no Outono de 1805 e a saída de Catalani, levaram o centro da actividade musical do reino para Mafra, onde o Príncipe Regente tinha passado a residir. Até Novembro de 1807 registou-se uma concentração inusitada de organistas, cantores, copistas, organeiros, estampilhadores e compositores, responsáveis por uma produção musical extraordinária e ainda não devidamente estudada. Só Marcos Portugal compôs mais de 20 obras religiosas (com particular incidência em 1807) para as vozes dos monges arrábidos, e para o conjunto único de 6 órgãos da Basílica.

As invasões francesas tiveram como consequência imediata a partida da Corte para o Rio de Janeiro a 29 de Novembro de 1807, onde o Príncipe Regente decidiu organizar a música de acordo com os moldes que existiam em Lisboa, nomeando para Mestre da Capela Real o Padre José Maurício Nunes Garcia, e mandando vir cantores e instrumentistas, que começaram a chegar em 1809. Marcos Portugal foi chamado por D. João em 1810 e chegaria a 11 de Junho de 1811. Foi nomeado Mestre de Suas Altezas Reais, e incumbido de compor a música para as ocasiões de maior significado religioso, social ou político, quando o Príncipe Regente, mais tarde Rei D. João VI, estivesse presente. Marcos nunca foi formalmente Mestre da Capela Real no Rio de Janeiro, continuando a receber os 600$000 reis anuais como Mestre do Seminário e compositor da Patriarcal, além de 480$000 reis por ano como Mestre de Música de Suas Altezas Reais, título pelo qual é referido nos documentos da época. As suas funções seriam complementares às do Padre José Maurício, responsável pela organização da música na Capela Real para as muitas festividades ao longo do ano litúrgico.

Marcos Portugal Marcos Portugal passou a ser figura chave na estratégia de representação do Poder Real urdida por D. João, responsável por um estilo de música adequado à encenação do esplendor e grandiloquência que envolviam as aparições públicas do Monarca na Capela Real, mas também responsável pela dignidade e bom andamento dos espectáculos musicais realizados nos teatros públicos, quando contassem com presença do Príncipe Regente. O compositor tornou-se no “encenador musical do Poder Real”, escrevendo específica e individualmente para as magníficas vozes ao seu dispor, entre elas 8 castrati (5 contratados em 1816 e 1817), tão do agrado do Soberano, e ingrediente fundamental da imagem sonora pretendida. A Capela Real era o palco privilegiado, e não surpreende que a vasta produção de Marcos Portugal neste período seja quase exclusivamente dedicada à música religiosa (essencialmente missas, matinas, salmos e hinos), incluindo algumas versões novas de obras escritas para a Basílica de Mafra. As 3 excepções são a farsa A saloia namorada, cantada na Quinta da Boa Vista (1812), a serenata Augurio di felicità, para celebrar as bodas de D. Pedro e de D. Leopoldina (1817), e o Hino para a Feliz Aclamação de D. João VI (1817). Pelos seus «bons serviços» Marcos Portugal recebeu a Comenda da Ordem de Cristo por decreto de 12 de Outubro de 1820, data de aniversário do Príncipe D. Pedro.

A situação dos músicos alterou-se radicalmente com o regresso da Corte para Portugal, e a subsequente Independência do Brasil em 1822. Não só regressaram muitos dos músicos ao serviço do Rei de Portugal (mas não os castrati), como os cortes orçamentais implicaram a diminuição do número das cerimónias de gala, e resultaram na degradação do nível musical na Capela Imperial. A importância estratégica que a música de Marcos tinha tido, perdeu-se. A música do seu aluno D. Pedro, primeiro Imperador do Brasil, substituiu a música do mestre em todas as ocasiões de maior significado político e social. As duas mais significativas obras deste período são o Hino da Independência do Brasil, com poesia de Evaristo Ferreira da Veiga e primeiro hino oficial brasileiro, e a Missa Breve, composta «Por Ordem de Sua Magestade Imperial» em Dezembro de 1824, altura em que foi confirmado como mestre de música de Suas Altezas Imperiais, com o salário de 480$000 reis anuais.